Anitta garimpa o ouro da existência na guinada espiritual de 'Equilibrium', sem renegar o funk em álbum corajoso

  • 26/04/2026
(Foto: Reprodução)
Anitta nunca soou tão brasileira como no álbum 'Equilibrium', disco repleto de atabaques e faixas impregnadas de espiritualidade Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Equilibrium Artista: Anitta Cotação: ★ ★ ★ 1/2 ♬ Anitta nunca foi tão brasileira como no álbum “Equilibrium” – nem mesmo quando fazia álbuns para o mercado fonográfico nacional na primeira metade dos anos 2010 – e, até por isso, é surpreendente que “Equilibrium” tenha chegado ao topo do Spotify global. Referências de brasilidade sempre estiveram presentes, em maior ou menor grau, nos discos gravados pela artista carioca para o mercado pop internacional. Basta lembrar o flerte com a bossa nova e a MPB em feat com Caetano Veloso em “Você mentiu”, faixa do álbum “Kisses” (2019). Contudo, “Equilibrium” é álbum enraizado na espiritualidade afro-brasileira, se alimenta da força rítmica nacional e representa salutar ruptura na discografia da artista, cujo último álbum internacional, “Funk generation” (2024), reprocessou o batidão carioca para os gringos com os códigos do universo pop internacional. A busca espiritual da artista rege o disco apresentado em 16 de abril com 15 faixas que totalizam 43 minutos. Mesmo os funks, como “Meia noite” e “Nanã”, estão impregnados de referências da umbanda e de atabaques. Alocado na 14º faixa do álbum, o inebriante funk “Meia noite” – formatado com o trio Los Brasileros – faz baixar a Pomba Gira que aparece já na primeira música do disco, “Desgraça”, samba de batida lo-fi. Já “Nanã” se nutre do canto ancestral dos Tincoãs ao referenciar a música mais emblemática do repertório do trio baiano, “Cordeiro de Nanã” (Mateus Aleluia e Dadinho, 1977), misturando funk com o rap de Rincon Sapiência, convidado da faixa ao lado de King Saints. Celeiro da espiritualidade afro-brasileira, a Bahia está entranhada no álbum, seja na arquitetura de “Bemba”, iguaria de Magary Lord e Samir Trindade degustada por Anitta com Luedji Luna, seja na versão em espanhol de “Várias queixas” (Germano Meneghel, Afro Jhow e Narcizinho, 2012), sucesso do grupo Olodum popularizado em clima mais pop romântico pelo trio Gilsons. “Varias quejas” é o aceno de Anitta para o mercado pop latino de língua hispânica juntamente com a simples presença da cantora colombiana Shakira em “Choka choka”, potente funk bilíngue, em espanhol e em português, concebido pela Girl from Rio para celebrar as caboclas da cultura indígena brasileira. Nesse mosaico de fé e festa montado por Anitta ao longo das 15 faixas do álbum “Equilibrium”, a energia feminina reina com as presenças de mulheres como Liniker em “Caminhador”, Marina Sena – convidada de Anitta em “Mandinga”, boa faixa calcada na energia do sample da gravação original de “Canto de Ossanha” (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966) – e de Melly em “Ternura”. Há excesso de feats neste álbum em que Anitta se desvia da fórmula do pop do maisntream. Mas é justo reconhecer que o suingue do trio Os Garotin se afina com o R&B romântico “Caso de amor” e que o grupo de reggae Ponto de Equilíbrio está em casa no balanço jamaicano de “Deus existe”. Se há excesso de feats, há também excesso de músicas. No conjunto da obra, o samba “Pinterest” soa totalmente dispensável no álbum “Equilibrium”, até porque a música já tinha sido lançada em 5 de março em single que sinalizou a nova era de Anitta. “Equilibrium” jamais renega o funk que deu nome e fama a Anitta, ainda que não seja dominado pelo gênero. “Vai dar caô”, faixa com Ebony e Papatinho direcionada para os bailes, poderia figurar em qualquer álbum anterior da cantora. Na tentativa de harmonizar o passado da artista no funk com o presente de Anitta nessa busca espiritual, o álbum “Equilibrium” por vezes peca pelo excesso, mas sem jamais deixar de se impor como um bom disco. Até porque, quando o álbum se encerra no tempo sereno do mantra “Ouro”, faixa de cinco minutos que junta Anitta com o duo Emanazul e traz discurso falado que prega o equilíbrio buscado pela artista no dia-a-dia, fica a certeza de que o álbum “Equilibrium” é corajoso, honesto. Acima de tudo,“Equilibrium” está em sintonia com o momento pessoal de Anitta, deixando em segundo plano a tentativa de encontrar o ouro falso e ilusório do mercado. Capa do álbum 'Equilibrium', de Anitta Divulgação

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/04/26/anitta-garimpa-o-ouro-da-existencia-na-ruptura-espiritual-de-equilibrium-sem-renegar-o-funk-em-album-corajoso.ghtml


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