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Elisa Lucinda te pega pela palavra em show com poemas da artista e letras de Billy Blanco, Chico César e Gilberto Gil
04/05/2026
(Foto: Reprodução) Elisa Lucinda celebra 40 anos de Rio de Janeiro com o show 'Ensaio para uma ideia, o improviso da griô', em cartaz no clube carioca Manouche nos domingos de maio
Rodrigo Goffredo
♫ CRÍTICA DE SHOW
Título: “Ensaio para uma ideia, o improviso da griô”
Artista: Elisa Lucinda
Data e local: 3 de maio de 2026 no Manouche (Rio de Janeiro, RJ)
Cotação: ★ ★ ★ 1/2
♬ Em 1986, então com 28 anos, Elisa Lucinda abandonou a carreira de jornalista e migrou de Vitória (ES) para o Rio de Janeiro (RJ) com a intenção de iniciar trajetória profissional nas artes. Enquanto se firmava na cena artística da cidade, a artista se apresentou em bares com espetáculos em que misturava música e poesia. Eram espetáculos calcados na palavra musical e na palavra poética.
Espetáculo caracterizado pela artista como “show-poema” e estreado na noite de ontem, 3 de maio, na casa carioca Manouche, onde ficará em cartaz nos domingos deste mês de maio, “Ensaio para uma ideia, o improviso da griô” é a celebração feita por Lucinda, 40 anos depois, daquele fértil momento artístico carioca.
Inspirada pela tradição dos griôs africanos (atores que cantam e contam histórias), a atriz e poeta conta causos, interpreta canções – com a emoção e/ou dramaticidade da atriz, deixando em segundo plano os rigores da técnica vocal – e recita poemas, sobretudo os dela, Elisa Lucinda, mas também de autores como Fernando Pessoa (1888 – 1935), Hilda Hilst e Mia Couto.
Embora por vezes tenha resultado prolixo na estreia, até porque a artista se permite o improviso em cena, o show-poema é sedutor e tende a ganhar maior fluência nas apresentações seguintes com os ajustes necessários e com a progressiva organicidade do rico material poético recolhido e apresentado por Lucinda na cena dividida pela artista com o duo Cafuzø, formado pelos instrumentistas Glaucus Linx (saxofone) e Sandro Lustosa (percussão).
Intérprete talentosa, hábil na récita de versos próprios e alheios, Elisa Lucinda te pega pela palavra poética e pela palavra musical de compositores como Billy Blanco (1924 – 2011), Chico César, Gilberto Gil e Vitor Martins, parceiro de Ivan Lins na canção “Começar de novo” (1979), hino da libertação feminina, interpretado por Lucinda com carga dramática.
Ativista, Elisa Lucinda põe em pauta temas como a misoginia e o racismo, abordados com altivez e por vezes com humor mordaz. O canto do samba “A banca do distinto” (Billy Blanco, 1959) sublinhou com espirituosidade o discurso contra o racismo estrutural da sociedade brasileira.
Elisa Lucinda tem o dom da palavra. Por ser atriz, a artista sabe interpretar um poema e dar o sentido exato a uma letra de música. A intérprete também tem presença, qualidade evidenciada desde que Lucinda entrou em cena com o canto de “Fruta Gogoia”, tema do folclore baiano que ganhou visibilidade nacional ao ser incluído por Gal Costa (1945 – 2022) do roteiro do show “Fa-Tal – Gal a todo vapor” (1971 / 1972).
Nenhuma música soou aleatória no roteiro. Se o samba “Rebento” (Gilberto Gil, 1979) precedeu a récita do poema “Consagração da criatura”, escrito por Lucinda para o filho quando ele tinha quatro anos, o politizado samba “40 anos” (Altay Veloso, 1992) soou como a retrospectiva vitoriosa das quatro décadas da artista na cidade do Rio de Janeiro.
Sob esse prisma, a interpretação do samba-reggae “O canto da cidade” (Tote Gira e Daniela Mercury, 1992) – com a artista no meio da plateia, tal como fizera no canto do samba “40 anos” – simbolizou tanto um brado da vitória carioca de Elisa Lucinda quanto a manifestação do orgulho negro já exposto, momentos antes, no canto de outro standard do cancioneiro da axé music, “Eu sou negão (Macuxi muita onda)” (Gerônimo Santana, 1987).
Como intérprete de músicas, a artista soube realçar a aridez de “Béradero” (Chico César, 1991) e o tom caipira da moda “Promessa de violeiro” (Raul Torres e Celino, 1979), mas nem tanto a melancolia entranhada no samba “Olhos de azeviche” (Jaguarão, 1975), propagado na voz ancestral de Clementina de Jesus (1911 – 1987) em gravação feita para álbum editado em 1979.
Contudo, em qualquer tom, a palavra imperou na cena altiva de “Ensaio para uma ideia, o improviso da griô”, show-poema que atesta a força de Elisa Lucinda como poeta e intérprete.
Elisa Lucinda canta sucessos de Clementina de Jesus (1901 - 1987) e Daniela Mercury no show 'Ensaio para uma ideia, o improviso da griô'
Rodrigo Goffredo