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Juliana Linhares se firma com grande álbum que capta e enfrenta o estado de exaustão da humanidade no suor da lira
11/05/2026
(Foto: Reprodução) Juliana Linhares lança o segundo álbum solo, 'Até cansar o cansaço', produzido por Elisio Freitas com direção artística de Marcus Preto
Elisa Mendes / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Até cansar o cansaço
Artista: Juliana Linhares
Cotação: ★ ★ ★ ★ ★
♬ “Vamos dançar / Até cansar o cansaço / Até que vire do avesso / Até um novo começo“, propõe Juliana Linhares em versos da música-titulo do segundo álbum solo da artista, “Até cansar o cansaço”. Cantora, compositora e atriz potiguar, Juliana Barbosa de Araújo se firma como um dos grandes nomes da música brasileira no século XXI com este álbum conceitual que bisa o brilhantismo e a coesão absoluta do primeiro álbum solo da artista revelada nos anos 2010 como vocalista da banda carioca Pietá, “Nordeste ficção” (2021).
Como já sinaliza a música-título “Até cansar o cansaço” (Juliana Linhares e Jeff Lyrio) na abertura do álbum, gravado com produção musical do multi-instrumentista Elisio Freitas e direção artística de Marcus Preto, Juliana Linhares apresenta disco que capta o estado permanente de exaustão da humanidade em um mundo cada vez mais hi-tech em que corpos e almas ansiosas e depressivas adoecem no suor da lira.
Inspirada por vivências com o neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, durante residência artística na Cia Brasileira de Teatro, a artista aponta saídas para escapar da sina do cansaço ao longo das 11 faixas do álbum, sem perder o fio da meada. “Puxa pela mão / Chama pra dançar / Rasga pelo céu / Derretendo o chão / Faz tempo parar / E tudo flutuar”, vislumbra a artista no clima onírico de “Depois do breu” (Juliana Linhares e Rafael Barbosa), música introduzida pela doçura do toque da sanfona de Zé Hilton.
Faixa que anunciou o álbum em single apresentado em 9 de abril, “Depois do breu” sublinha o fato de Juliana Linhares descender da linhagem feminina de cantoras e/ou compositoras nordestinas como a paraibana Elba Ramalho e as pioneiras pernambucanas Marinês (1935 – 2007) – criada na Paraíba – e Anastácia.
Essa dinastia reveste de simbologia o feat de Juliana Linhares com Anastácia no baião “Vida virada” (Juliana Linhares, Josyara e Elisio Freitas), sopro de vida bafejado no toque da zabumba e do triângulo percutidos por Gabriel Silva. “Eu quero a vida virada / A vida na estrada / Poeira nos ói / Quero que a noite me veja / E acenda a fogueira no canto que dói / ... / Ah, eu me cansei / Dе trabalhar pra conquistar o tal descanso que nunca se paga / Ah, preciso ir / Antes que a dívida do tempo cobre as horas em que fiquei sentada”, cantam Anastácia e Juliana, se alternando nos versos pautados pela urgência.
Nessa busca para cansar o cansaço, o amor e o afeto do outro são alternativas viáveis. “Deixei de lado a solidão / Chorei e vi brotar do chão / Um gosto bom de futuro”, narra Juliana Linhares no xote “Tanto buliço” (Juliana Linhares e Khrystal Saraiva), gravado pela artista com Agnes Nunes, cantora baiana nascida na Paraíba.
Tem tanto (re)buliço na nação musical nordestina que cai bem no álbum a lembrança inusitada de “O rabo do jumento” (Elino Julião, 2000), instante de leveza de repertório que toca em questões essenciais e profundas, mesmo que por vezes dilua o peso dos temas na vivacidade rítmica de um forró contemporâneo como “Mistério do óbvio” (Luiz Gabriel Lopes) em feat com Ney Matogrosso.
“Olho pro alto e não vejo a cidade e o fim do mundo / Olho pro lado, será que é milagre? / A caravana mais velha da terra terá lugar ao sol / Sobrevivendo ao naufrágio e à toda escuridão / Inaugurando uma era / Todos as flores do mundo / O grande mistério do óbvio / Na velocidade de um míssil”, disparam Juliana e Ney enquanto xaxam na pegada roqueira impressa pelas guitarras de Elisio Freitas na faixa.
Se a vida é sonho, a realidade dura se impõe no cotidiano, como sublinham os versos ácidos da grande canção “Emaranhada”, composta por Juliano Holanda, gravada pelo autor com Juliana há dois anos no álbum “A verdade não existe” (2024) e ora abordada pela cantora em registro à altura da música.
A voz da cantora se afina com versos como “Me empreste seu arquipélago, juro que te devolvo / Nem tudo que a onda leva merece voltar de novo / Tem sal que talvеz adoce, açúcar que as vezes salga / Palavra que é feito língua, tem língua que é feito faca / Comida que não enjoa, viagem que não tem mala / Tem grito que não ecoa, silêncio que as vezes fala / No emaranhado da rede medida deveras drástica / Alguém que matasse a sede com um gole de soda cáustica / Lá no emaranhado antenas por sobre os prédios / Pessoas nos formigueiros doentes dos seus remédios / Há fios desencapados fagulhas nos seus palheiros / Os sonhos ficam guardados na fronha dos travesseiros”.
A firmeza do canto agudo da intérprete também fica exposta na intepretação de outra canção de Holanda, “Tempos temporais”, esta em parceria com a própria Juliana Linhares. A melancolia de versos como “Se eu disser que ainda dá pro gás / Que vou contigo ainda um pouco mais / E que existe um sol na solidão /Algo entre o ir e vir, o céu e o chão” é sublinhada pelo toque da sanfona de Bebê Kramer em arranjo alicerçado pelo violão de Elísio Freitas e temperado com o lirismo do violoncelo de Federico Puppi e do violino de Renata Neves. Interpretação e arranjo valorizam a canção.
Música do compositor Alexandre Manuel Thiago de Mello (1952 – 2004), o Manduka, “Conseguiram, parabéns” – apresentada postumamente por Ilessi e Diogo Silli em 2020 em songbook do compositor – radiografa com pesar o estado calamitoso de mundo dominado pelos que (se) matam no poder. A faixa tem a mesma atmosfera rocker que ambienta a regravação de “A palo seco” (Belchior, 1973).
Contudo, no aconchegou da faixa final, “Futuro (Novos erros) + Oração pro sonho” – parceria de Juliana com Carlos Posada – a artista amacia o canto torto feito faca com a delicadeza e o lirismo dessa canção que prepara o clima para sonhar mais um sonho impossível em que o cansaço seja vencido pelo cansaço de quem, no suor da lira, insiste em querer a vida virada, pagando para ver a liberdade de virar do avesso em busca de novo começo.
No todo, o álbum “Até cansar o cansaço” é obra-prima que se impõe como clássico imediato da discografia brasileira por retratar a humanidade à beira de um ataque de nervos com sopro de esperança em dias melhores.
Capa do álbum 'Até cansar o cansaço', de Juliana Linhares
Elisa Mendes com design de Vitor Bezerra