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Zélia Duncan dá passo à frente com a fricção de 'Agudo grave', álbum autoral que evolui como 'sólido que escorre'
15/05/2026
(Foto: Reprodução) Zélia Duncan lança o 15º álbum de estúdio em 45 anos de carreira, 'Agudo grave', com dez músicas autorais e a regravação de tema de Itamar Assumpção (1949 – 2003)
Mauro Restiffe / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Agudo grave
Artista: Zélia Duncan
Cotação: ★ ★ ★ 1/2
♬ Na letra de “Maravilha disforme”, uma das dez músicas inéditas do 15º álbum de estúdio de Zélia Duncan em 45 anos de carreira, “Agudo grave”, a artista relaciona paradoxos e contradições em versos como “O belo que apavora” e “O afago que só corta”.
Integrante da letra escrita para melodia típica de Lenine, parceiro de Zélia na composição e convidado da faixa pontuada pelos sopros do clarinete e do clarone de Maria Beraldo, o verso “O sólido que escorre” se impõe com perfeita tradução do álbum gravado entre setembro de 2025 e janeiro deste ano de 2026 no Estúdio do Tó, em São Paulo (SP), com produção musical e arranjos de Maria Beraldo.
Ao longo de 11 faixas, o álbum “Agudo grave” soa como sólido que escorre por conta da salutar conexão de Zélia com Beraldo. Artista que habita o universo da invenção, Maria Beraldo (des)estrutura o cancioneiro de Zélia Duncan, não a ponto de torná-lo irreconhecível para ouvintes de álbuns como “Pré-pós-tudo-bossa-band” (2005), “Pelo sabor do gesto” (2009) e “Tudo é um” (2019), mas o suficiente para fazer com que a cantora, compositora e instrumentista fluminense dê passo à frente na discografia iniciada em 1990.
Em suma, como produtora musical e arranjadora do álbum, orquestrado sob direção artística de Zélia Duncan e lançado em 14 de maio, Maria Beraldo joga outra luz sobre a obra dessa cantora de tons escuros, compositora (geralmente letrista) de obra ancorada no universo do folk, ecoando assumidas influências como a cantora e compositora canadense Joni Mitchell.
Com apurada engenharia de som capitaneada por Tó Brandileone, “Agudo grave” é álbum mais de fricção do que de ruptura, como sinalizam os violões (tocados por Beraldo e Brandileone) ouvidos na introdução da primeira faixa do álbum, a música-título “Agudo grave”, inspirada música de Zélia com Lucina, parceira desde a decisiva década de 1990. “Sinto agudo / E canto grave / No meu pequeno intenso mundo / Quantos imensos mundos cabem?”, questiona Zélia em versos da canção-título.
No mosaico de parceiros do álbum “Agudo grave”, Zélia Duncan amplia esse mundo através da conexão com o baixista e compositor Alberto Continentino, parceiro de três das 10 músicas autorais alinhadas em disco que será editado nos formatos físicos de LP e CD.
Na primeira delas, “Pontes no ar”, cantada por Zélia com Continentino, o arranjo de Maria Beraldo ergue a impressão de que a bateria de Sérgio Machado e o baixo do próprio Alberto Continentino sustentam no ar as pontes do título da música. Na segunda parceria dos artistas, “E aí, IA?”, canção de título tão engenhoso quanto conciso, paira uma sensação de dissonância sobre o toque jazzy de um piano tocado por Maria Beraldo e/ou por Tó Brandileone.
A terceira parceria de Zélia com Continentino, “Importante”, ganha a forma de samba encabulado em que as janelas são abertas para entrar a brisa do amor, com o violão de João Camarero e o cavaquinho de Rodrigo Campos ecoando algum lugar do passado da música brasileira em harmonioso atrito com a contemporaneidade do arranjo.
A propósito, “Agudo grave” é álbum em que os arranjos sobressaem ao longo das 11 faixas – até porque as melodias dos oito parceiros nem sempre estão à altura das letras e da inquietude de Zélia Duncan, e são esses eventuais desequilíbrios entre música e letra que tiram pontos e impedem o álbum “Agudo grave” de se impor como a obra-prima que ele bem poderia ser.
Parceria da artista com Ná Ozzetti, “Meu plano” nivela bem melodia, letra e o arranjo em que Maria Beraldo evoca o paraíso onírico e solar vislumbrado por Zélia nos versos. Esse paraíso parece ambientar o amor Caymmi descrito nos versos “Calmo”, parceria da artista com Zeca Baleiro que justifica o título ao evoluir com a serenidade da “Conversa na varanda” mencionada em um dos versos.
Outro exemplo de equilíbrio entre música, letra, arranjo e execução é “Voz”, parceria de Zélia com Maria Beraldo, cantada pelas duas artistas sobre a cama armada pelo violão de João Camarero, coautor do arranjo. “Meu corpo é a estrada toda”, sinalizam as artistas na faixa, um dos pontos mais altos do álbum.
Parceria de Zélia com Pedro Luís, “Olhos de cimento” pesa o clima na polaroide urbana de relacionamento em que “sobra vazio e o sol virou sombra” no poço da solidão. O timbre rascante da guitarra de Filipe Coimbra sublinha o tom seco da faixa.
Contudo, na sequência do álbum, “Resolvidinho” – música de Zélia com Juliano Holanda, único parceiro do álbum anterior da artista, “Pelespírito” (2021) – amansa novamente o álbum e o devolve ao reino dos afetos, com a proposta onírica de dormir e sonhar dentro do outro.
No fim, Zélia arremata “Agudo grave” com a única regravação do repertório, “Que tal o impossível?” (1988), música de Itamar Assumpção (1949 – 2003), compositor recorrente na discografia da cantora há 30 anos. E aí o que parece óbvio soa extremamente pertinente porque, em “Agudo grave”, Zélia Duncan canta Itamar Assumpção com a transgressão impressa na obra vanguardista do compositor com arranjo polifônico em que sobressai o piano inusual de Vitor Araújo.
Afinal, a posição dianteira ontem ocupada pelo Nego Dito no desvario musical da Pauliceia hoje é de artistas inventivos como Maria Beraldo, a quem Zélia Duncan se conecta neste álbum que se alimenta da contradição entre a obra da artista e a produção musical e os arranjos de Beraldo, fazendo com que “Agudo grave” irradie outra luz ou, para voltar ao verso de “Maravilha disforme” citado no início, evolua como um sólido que escorre.
Capa do álbum 'Agudo grave', de Zélia Duncan
Mauro Restiffe / Divulgação